quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Retomada
Mais de um ano sem postar. Nunca mais li o que escrevi. Realmente o tempo voa. O Facebook toma muito meu tempo, pelo dinamismo de mensagens/conversas/posts. Mas está começando a ficar um pouco inchado e acaba que não consigo mais visualizar quem realmente interessa. Diferente do Instagram onde ainda há poucas pessoas, só imagens, tudo mais direto e instantâneo. As pessoas acabam se "curtindo" mais. Mas andei vendo tantos blogs ótimos que me inspiraram tentar retomar novamente a escrita. A reformulação e limpeza na página talvez também ajude a deixar tudo mais claro. Ou pode ser que eu não tenha vocação - ou treinamento - para escrever em blogs. Os blogs legais que vi, eram sempre com comentários curtos e pontuais sobre alguma coisa interessante e eu tenho o vício da escrita científica, sempre muito explicativa e prolixa... Mas, como os 42 estão sendo uma idade de crise - mudança de cargo, retomada da produção, reforma da casa... - escrever pode ajudar um pouco. Nem que seja escrever sobre trabalhos que gosto, que é o que passei a tarde fazendo...
sábado, 3 de setembro de 2011
Paul Bowles: The sheltering sky - Bernardo Bertolucci Film
"Because we don't know when we will die, we get to think of life is an inexhaustible well. Things happen only a certain number of times. And a small number, really. How many times will you remember an afternoon of your childhood, an afternoon so deeply a part of you that you can't be without it? Perhaps four or five times more. Perhaps not even that. How many times will you watch the moon rise? Perhaps 20. And yet it all seems limitless".
Diários de viagem
Sempre tive certo encanto por diários. Ler o diário de outra pessoa é uma maneira de estar muito próximo de sua vida, sua rotina, seu dia-a-dia. Talvez seja uma das possibilidades de "representação" do aqui e agora de determinado sujeito sem qualquer pretensão. Diários geralmente são íntimos, particulares, portanto, sem a expectativa da grandeza, do espetáculo, da encenação dos reallity shows. Se alguém escreve um diário prevendo que este seja a chave de um enigma, ele já perdeu a vocação, já possui outro fim. Li o Diário de Andy Warhol inteiro e várias vezes, embora não se trate exatamente de um diário: trata-se de uma transcrição de conversas que ele mantinha com sua assistente, Pat Hackett, que compilou e publicou essas transcrições após a morte do artista. Segundo a editora, ela fez uma seleção, dentre muitos milhares de páginas, para algumas centenas que pudessem expressar o cotidiano do artista com a máxima fidelidade possível. Mas, nunca saberemos se não se trata de uma interpretação parcial feita pelo "outro". Recentemente caiu em minhas mãos outro diário. Quando a Escola de Belas Artes de Pelotas completaria 60 anos, a neta de sua fundadora, que herdou da avó todos os documentos sobre a Escola, disse que cumpriria a promessa feita: escreveria um livro e depois queimaria tudo. Fiquei atônito imaginando o que viria pela frente. Para minha surpresa, alguns meses depois Janice de Moraes Pires publicou, quase na íntegra, os diários de sua avó: "Memórias de Marina", que são os diários de Dona Marina de Moraes Pires, fundadora da EBA. O diário mistura vida privada com o envolvimento institucional da autora, imbuída de determinação para fundar uma escola de arte em Pelotas, e apresenta um retrato sobre o estilo de vida em certo período do século XX - de 1949 a 1972 - na cidade de Pelotas: as relações com a família, as preocupações com os filhos, o trato com os professores e os alunos, os artistas que viviam em Pelotas nesse período, além de relatos que nos fornecem uma impressão bastante rica da cidade naquela época: os cinemas, as missas, os restaurantes, as férias, as viagens, a cascata, os verões, os invernos... Enfim, um relato sem pretensões que registra aquele cotidiano. Volta e meia gosto de pegar esses diários a esmo e dar uma folheada, comparar o meu dia, com o mesmo dia há décadas atrás e ficar relendo aqueles dias. É uma narrativa sem grandes transformações, sem grandes enredos e é por isso mesmo que me atrai: as mudanças são aquelas cujo principal protagonista é o tempo que passa. Mas foi uma incrível coincidência que me fez pensar em tudo isso. Outro dia vi uma imagem que Dorotea Kremer postou no Facebook: Ophélia, de Sir. John Everett Millais. É uma pintura linda e tive a impressão de já tê-la visto, talvez na Tate Gallery. Lembrava muito do nome do autor, porque já havia escrito esse nome em minha vida. Lembrava de uma pintura dele que havia retido minha atenção na Tate Gallery em meio àquela infinidade de pinturas. Nossas visitas de turistas a museus em geral não permitem observações muito demoradas. São poucos dias, muitos museus e poucos objetivos para ver coisas específicas, mas eu sempre carregava uma caderneta para anotações e uma câmera fotográfica, para registrar o que fosse possível, por isso lembrava o local e o nome do artista. Curiosamente, não tinha certeza sobre a imagem. Passaram-se uns dois dias desde que vi e comentei esse post e tive que fazer uma mudança na área de serviços do meu apartamento. Para minha surpresa, abro uma caixa e encontro três pequenos cadernos, comprados numa livraria japonesa que conheci em Londres e mais tarde em Nova York chamada Muiji. Os cadernos são deliciosos, fininhos, tem capa marrom - aquele tom de papel pardo - com uma lombada cinza escuro ou marrom mais escuro e incitam à escrita. Abri o primeiro deles e as anotações da primeira página eram as seguintes:
Despesas no cartão
Londres - 01.09.98 £11,15 Muji
Tate Gallery.
Sir John Everett Millais
"Ophélia"
Continuei lendo o caderno que misturava informações, preços para controle de despesas, dados sobre registros fotográficos de obras de arte - naquela época a Internet ainda era uma coisa distante, então viajava e fotografava em filmes de slides para apresentar nas aulas depois. Passei para o segundo caderno e este sim era, de fato, um diário de viagem. Reli inteiro com a mesma avidez que leio alguma obra qualquer, com a diferença de que conseguia relembrar muitas coisas e não fazer a menor idéia de outras. Parece ter sido ontem, mas lá se vão exatos 13 anos. Consigo perceber em linhas gerais o que eu era naquela época, como era uma viagem, que mudanças ocorreram daquela data até hoje. Ainda havia uma menção freqüente a "comprar cartões e enviá-los por correio", uma prática que hoje está quase extinta, na medida em que conseguimos nos fazer presentes a quem está distante de maneira muito mais rápida e barata pela Internet. Lembrei que estava em Londres para conhecer o Pharmacy, restaurante-obra-instalação de Damien Hirst. Estive lá com dois amigos, Débora e Charles, que vivem em Londres até hoje, e escrevi minhas impressões sobre o lugar e sobre a arte contemporânea em 1998. Escrevi rapidamente sobre Londres, observações triviais de turista, capaz de se deter sobre coisas irrelevantes e achar que são significativas pela necessidade de estabelecer as primeiras referências num lugar ainda estranho. Finalmente, me vejo como alguém de 29 anos que vaga alegremente por Pubs e baladas em busca de encontros e desencontros possíveis: os encontros por acaso com amigos brasileiros em Covent Garden, o reencontro com amigos ingleses que conhecera um ano antes, os desencontros com Débora, que estava me hospedando e esqueceu de deixar a chave, uma noite vagando com Eduardo Chafe atrás de um hotel "bom e barato" ao invés de um "bed and breakfeast"... Enfim, verdadeiros pedaços, fragmentos, de um momento que já estava esquecido. O que me lembrou imediatamente a fala final de Paul Bowles no filme "O céu que nos protege", na qual ele menciona algo relativo a nossas pequenas lembranças perdidas na memória, sem as quais não seríamos o que somos hoje - e completa com uma observação relativa a nossa ilusão de infinitude. Quando fiz minhas primeiras tentativas de escrever num blog, ainda não tinha muito claro de como seria e do que se tratava, o que ainda hoje busco compreender melhor, embora não escreva muito. Intuo de que um blog seja algo que permita uma interlocução e se destine, de alguma maneira, "a um leitor". Sei que alguém poderá ler o que estou escrevendo, então "atuo" de certo modo. Um diário é diferente disso, e talvez seja por isso que diários me atraem: diários não têm a pretensão de serem lidos, são íntimos. O que é diferente de secreto. Não acredito que alguém escreva segredos em diários, até mesmo porque segredos a gente esconde até da gente mesmo. São apenas isso, relatos íntimos, um relato feito para o próprio sujeito que escreve entender as suas coisas, um movimento semelhante a se olhar no espelho: a gente pode se olhar a qualquer momento, quando se acha feio ao acordar pela manhã, quando se sente bonito ou feliz... A diferença é que a imagem do espelho é uma impressão fugaz e o diário é um registro de impressões. Então tento entender com certa nostalgia porque não escrevo um diário, ou porque não envio mais cartões quando viajo. Acho que é simples: porque as coisas mudam, a gente estabelece algumas prioridades, faz algumas escolhas – mesmo que essas escolhas sejam condicionadas. Até que um dia somos capazes de retomar, a partir de uma imagem no Facebook, um caderno que estava escondido no fundo da área de serviços e resgatamos uma torrente de lembranças que nos faz reavaliarmos se o que estamos fazendo é realmente importante e se não é possível retomarmos algumas coisas que foram deixadas pelo caminho. Assim, a vida parece deixar de ser um continuum linear e pode ser entendida como uma sobreposição possível de lembranças, sensações, impressões de diferentes lugares, em diferentes momentos e com diferentes pessoas – todas elas, partes constitutivas e imprescindíveis de nossa existência, sem as quais – retomando Paul Bowles – não existiríamos. Talvez diários catalizem essas impressões.
Despesas no cartão
Londres - 01.09.98 £11,15 Muji
Tate Gallery.
Sir John Everett Millais
"Ophélia"
Continuei lendo o caderno que misturava informações, preços para controle de despesas, dados sobre registros fotográficos de obras de arte - naquela época a Internet ainda era uma coisa distante, então viajava e fotografava em filmes de slides para apresentar nas aulas depois. Passei para o segundo caderno e este sim era, de fato, um diário de viagem. Reli inteiro com a mesma avidez que leio alguma obra qualquer, com a diferença de que conseguia relembrar muitas coisas e não fazer a menor idéia de outras. Parece ter sido ontem, mas lá se vão exatos 13 anos. Consigo perceber em linhas gerais o que eu era naquela época, como era uma viagem, que mudanças ocorreram daquela data até hoje. Ainda havia uma menção freqüente a "comprar cartões e enviá-los por correio", uma prática que hoje está quase extinta, na medida em que conseguimos nos fazer presentes a quem está distante de maneira muito mais rápida e barata pela Internet. Lembrei que estava em Londres para conhecer o Pharmacy, restaurante-obra-instalação de Damien Hirst. Estive lá com dois amigos, Débora e Charles, que vivem em Londres até hoje, e escrevi minhas impressões sobre o lugar e sobre a arte contemporânea em 1998. Escrevi rapidamente sobre Londres, observações triviais de turista, capaz de se deter sobre coisas irrelevantes e achar que são significativas pela necessidade de estabelecer as primeiras referências num lugar ainda estranho. Finalmente, me vejo como alguém de 29 anos que vaga alegremente por Pubs e baladas em busca de encontros e desencontros possíveis: os encontros por acaso com amigos brasileiros em Covent Garden, o reencontro com amigos ingleses que conhecera um ano antes, os desencontros com Débora, que estava me hospedando e esqueceu de deixar a chave, uma noite vagando com Eduardo Chafe atrás de um hotel "bom e barato" ao invés de um "bed and breakfeast"... Enfim, verdadeiros pedaços, fragmentos, de um momento que já estava esquecido. O que me lembrou imediatamente a fala final de Paul Bowles no filme "O céu que nos protege", na qual ele menciona algo relativo a nossas pequenas lembranças perdidas na memória, sem as quais não seríamos o que somos hoje - e completa com uma observação relativa a nossa ilusão de infinitude. Quando fiz minhas primeiras tentativas de escrever num blog, ainda não tinha muito claro de como seria e do que se tratava, o que ainda hoje busco compreender melhor, embora não escreva muito. Intuo de que um blog seja algo que permita uma interlocução e se destine, de alguma maneira, "a um leitor". Sei que alguém poderá ler o que estou escrevendo, então "atuo" de certo modo. Um diário é diferente disso, e talvez seja por isso que diários me atraem: diários não têm a pretensão de serem lidos, são íntimos. O que é diferente de secreto. Não acredito que alguém escreva segredos em diários, até mesmo porque segredos a gente esconde até da gente mesmo. São apenas isso, relatos íntimos, um relato feito para o próprio sujeito que escreve entender as suas coisas, um movimento semelhante a se olhar no espelho: a gente pode se olhar a qualquer momento, quando se acha feio ao acordar pela manhã, quando se sente bonito ou feliz... A diferença é que a imagem do espelho é uma impressão fugaz e o diário é um registro de impressões. Então tento entender com certa nostalgia porque não escrevo um diário, ou porque não envio mais cartões quando viajo. Acho que é simples: porque as coisas mudam, a gente estabelece algumas prioridades, faz algumas escolhas – mesmo que essas escolhas sejam condicionadas. Até que um dia somos capazes de retomar, a partir de uma imagem no Facebook, um caderno que estava escondido no fundo da área de serviços e resgatamos uma torrente de lembranças que nos faz reavaliarmos se o que estamos fazendo é realmente importante e se não é possível retomarmos algumas coisas que foram deixadas pelo caminho. Assim, a vida parece deixar de ser um continuum linear e pode ser entendida como uma sobreposição possível de lembranças, sensações, impressões de diferentes lugares, em diferentes momentos e com diferentes pessoas – todas elas, partes constitutivas e imprescindíveis de nossa existência, sem as quais – retomando Paul Bowles – não existiríamos. Talvez diários catalizem essas impressões.
sábado, 15 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Sessão da tarde
Como ainda estou num ritmo lento - no último encontro com o médico ele ressaltou a necessidade de um recondicionamento físico gradual - é bom e necessário passar as tardes em casa. Sobretudo com esses calores úmidos e tórridos. Então, muitas comédias românticas e filminhos leves, intercalados por algumas leituras igualmente leves. Aí resolvi retomar um livro que ganhei de um amigo, Jefferson: Marilyn e JFK. Um dia estava no apartamernto de Brod em Porto Alegre e vi esse livro por ali. Não imaginava o que o levaria a se interessar por esse assunto e tampouco eu já tinha me interessado sobre esse caso. Então ele abriu o livro e apontou para a epígrafe, que dizia o seguinte:
A ascensão de Marylin
"Os Federais haviam colocado escutas. Nas duas últimas semanas, ela tinha 'traçado' o disc-jóquei Allan Freed, Billy Eckstine, Fred Otash, Jon Ramar of the jungle Hall, o cara que limpava a piscina, dois entregadores de pizzas, o amestrador de Rin-Tin-Tin, o apresentador de talk-shows Tom Dugan e o marido da faixineira."
James Ellroy,
American Tabloid
Algumas semanas depois, ganhei o referido livro de Jefferson. Comecei a folhar. A leitura é fácil, tem um ritmo empolgante de romance policial. Claro que, em alguns dias, não consegui dar continuidade a leitura e o livro acabou entrando para uma pilha crescente que se acumula na minha mesa de 'coisas que estou lendo'. Mas agora, neste período de calma, retomei-o. O autor é um francês, François Forestier. O livro é interessante por apresentar um ponto de vista histórico pouco evidente, sem pretender lançar mais uma teoria conspiratória a respeito da morte dos protagonistas. Nem toca nesse ponto, mas aponta para algumas curiosidades bem interessantes. A narrativa se concentra nos bastidores da vida de Marilyn e JFK, o que envolve a Máfia, FBI, CIA e Hollywood. Vários personagens tornados célebres pelo star sistem aparecem intercalados por nomes totalmente anônimos ao mundo do entertainement, afinal trata-se de espionagem. Franck Sinatra, Liz Taylor, Grace Kelly e outras estrelas de Hollywood vistas sob um prisma não tão glamouroso, mas ainda como mortais em busca da luz que iria eternizá-los. E de todos os esforços que precisaram fazer para alcançar o patamar que atingiram. O livro, no entanto, peca um pouco pelo tom demasiado ácido do autor. Isso o destitui de uma certa "neutralidade" que garantiria plena fidedignidade, mas talvez seja esse mesmo aspecto que lhe confira o ritmo empolgante. Forestier fala dos Kennedy como uma corja de irlandeses imundos e grossos, sempre envolvidos com a máfia ou o submundo do crime. E quem está por perto também. Às vezes o livro adquire um tom de ressentimento, de alguém que não pertence a certo universo e por isso precisa se vingar de quem vive num mundo de poder e riqueza. Apenas numa frase do livro Forestier concede um crédito a JFK: logo em seguida à morte de Marilyn "JFK está com as mãos livres para se ocupar dos mísseis soviéticos em Cuba. O que faz com brilho, evitando por um triz a devastação mundial". Quanto a Marilyn, talvez tenha sido o melhor papel que Norma Jeane interpretou. Quase um reallity show onde ela é a diva. Após o epílogo do livro, duas partes nos situam dentro do universo percorrido pelo autor, que nos informa suas fontes de pesquisa - uma vasta bibliografia sobre todos os personagens - e um In memoriam que nos diz como o futuro se encarregou de todos eles: a maioria morreu assassinada ou de câncer. Mais algumas curiosidades: ao mencionar o que aconteceu com um dos personagem, James J. Angleton, o autor informa que o arquivo Kennedy da CIA será aberto apenas em 2029; e depois de todas as conspirações e tentativas de assassinato, um dos únicos ainda vivos é Fidel Castro, que sobrevive numa Cuba agonizante, pós JFK e pós URSS.
FORESTIER, François. Marilyn e JFK. Tradução de Jorge bastos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
A ascensão de Marylin
"Os Federais haviam colocado escutas. Nas duas últimas semanas, ela tinha 'traçado' o disc-jóquei Allan Freed, Billy Eckstine, Fred Otash, Jon Ramar of the jungle Hall, o cara que limpava a piscina, dois entregadores de pizzas, o amestrador de Rin-Tin-Tin, o apresentador de talk-shows Tom Dugan e o marido da faixineira."
James Ellroy,
American Tabloid
Algumas semanas depois, ganhei o referido livro de Jefferson. Comecei a folhar. A leitura é fácil, tem um ritmo empolgante de romance policial. Claro que, em alguns dias, não consegui dar continuidade a leitura e o livro acabou entrando para uma pilha crescente que se acumula na minha mesa de 'coisas que estou lendo'. Mas agora, neste período de calma, retomei-o. O autor é um francês, François Forestier. O livro é interessante por apresentar um ponto de vista histórico pouco evidente, sem pretender lançar mais uma teoria conspiratória a respeito da morte dos protagonistas. Nem toca nesse ponto, mas aponta para algumas curiosidades bem interessantes. A narrativa se concentra nos bastidores da vida de Marilyn e JFK, o que envolve a Máfia, FBI, CIA e Hollywood. Vários personagens tornados célebres pelo star sistem aparecem intercalados por nomes totalmente anônimos ao mundo do entertainement, afinal trata-se de espionagem. Franck Sinatra, Liz Taylor, Grace Kelly e outras estrelas de Hollywood vistas sob um prisma não tão glamouroso, mas ainda como mortais em busca da luz que iria eternizá-los. E de todos os esforços que precisaram fazer para alcançar o patamar que atingiram. O livro, no entanto, peca um pouco pelo tom demasiado ácido do autor. Isso o destitui de uma certa "neutralidade" que garantiria plena fidedignidade, mas talvez seja esse mesmo aspecto que lhe confira o ritmo empolgante. Forestier fala dos Kennedy como uma corja de irlandeses imundos e grossos, sempre envolvidos com a máfia ou o submundo do crime. E quem está por perto também. Às vezes o livro adquire um tom de ressentimento, de alguém que não pertence a certo universo e por isso precisa se vingar de quem vive num mundo de poder e riqueza. Apenas numa frase do livro Forestier concede um crédito a JFK: logo em seguida à morte de Marilyn "JFK está com as mãos livres para se ocupar dos mísseis soviéticos em Cuba. O que faz com brilho, evitando por um triz a devastação mundial". Quanto a Marilyn, talvez tenha sido o melhor papel que Norma Jeane interpretou. Quase um reallity show onde ela é a diva. Após o epílogo do livro, duas partes nos situam dentro do universo percorrido pelo autor, que nos informa suas fontes de pesquisa - uma vasta bibliografia sobre todos os personagens - e um In memoriam que nos diz como o futuro se encarregou de todos eles: a maioria morreu assassinada ou de câncer. Mais algumas curiosidades: ao mencionar o que aconteceu com um dos personagem, James J. Angleton, o autor informa que o arquivo Kennedy da CIA será aberto apenas em 2029; e depois de todas as conspirações e tentativas de assassinato, um dos únicos ainda vivos é Fidel Castro, que sobrevive numa Cuba agonizante, pós JFK e pós URSS.
FORESTIER, François. Marilyn e JFK. Tradução de Jorge bastos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
De "Viagem às nascentes do sentido"
"Ora, o processo de restabelecimento da saúde que começa então implica, em nome de sua eficácia, que não haja nenhum obstáculo à transparente relação que está por estabelecer-se entre o possuidor do saber - o médico - e "seu" objeto, ou seja, o "meu" corpo. Noutras palavras, tudo se passa estranhamente como se o êxito da cura exigisse a princípio o afastamento do enfermo, enquanto pessoa, à posição, tão silenciosa e mansa quanto for possível, de um simples observador. Nisso exatamente consiste o que se chama "coragem" diante da doença: saber manter-se à distância, pois - deve-se compreender - o fato de sofrer em alguma parte de si mesmo não constitui motivo suficiente para interferir, com o risco de atrapalhar aqueles que sabem verdadeiramente de que se trata! Mas, felizmente, ao passo que o dispositivo actancial assim imposto exclui que o "objeto" (o corpo dolorido) seja confundido com o "sujeito" (da dor realmente vivida), esse último - o doente -, ao queixar-se de seu corpo quase como se ele fosse uma coisa distinta da sua própria pessoa, é, ele mesmo, o primeiro a objetivá-lo".
Eric Landowski, Viagem às nascentes do sentido.
Eric Landowski, Viagem às nascentes do sentido.
A espera
Acabou o assunto. Mas, seja lá como for, escrever ainda é uma das coisas que tem me ajudado a retomar a vida no ritmo possível. Como havia afirmado, e volto a fazê-lo, a sensação que melhor define o estado de alguém - digo isso por mim - que acabou de passar por uma cirurgia de proporções razoáveis é de "estranhamento". Não se tem muita certeza se se está bem, se os desconfortos ainda são seqüelas da cirurgia, se alguma coisa não está bem e poderá se agravar ou se a vida vai ficar igual, pior ou melhor ao que era antes. A gente está com um corpo meio novo, com o qual ainda não estava acostumado. Isso no plano bem concreto. Num grau mais abstrato ou metafísico a idéia de ter estado conscientemente próximo da morte aumenta ainda mais essa sensação de estranhamento. Antes dessa experiência da cirurgia - e depois dela também - sempre pensei da seguinte maneira: viver é um estado de risco permanente, mas a gente não pensa nisso. Cada vez que vou ou volto de carro de Pelotas para Porto Alegre cruzo na estrada com mais de uma centena de veículos que vão no sentido oposto, cujo motorista desconheço, assim como as condições mecânicas do carro ou o que mais possa colocar minha vida em risco. E os jornais estão recheados de casos de automóveis que "se desgovernaram", invadiram a pista oposta e estraçalharam o coitado que vinha feliz da vida e sem fazer nada errado. É o princípio do acidente. Alguma coisa não prevista acontece de maneira inesperada causando - geralmente - um estrago. Mas a gente não pensa nisso cada vez que vai na padaria, senão ficaria em casa - de preferência no campo e com um pára-raios! - para evitar qualquer fatalidade. Lembro da entrevista de algum daqueles artistas que morreu no final dos anos 1980 ou início dos 1990, no auge da AIDS, falando mais ou menos a mesma coisa: que todo mundo um dia morreria, mas estar com AIDS era conviver com essa idéia diariamente, a cada minuto. E de fato, estar com AIDS naquela época era estar na fila de entrada para o cemitério! E é mais ou menos essa a sensação de passar por uma experiência de risco conscientemente. Mas talvez tudo isso venha à tona pelo simples motivo de estar tentando fazer a vida voltar ao "normal", ou melhor, voltar ao cotidiano. A gente sai do hospital, o médico nos manda pra casa fazer repouso, ficar quieto e esperar. E essa é a coisa mais difícil: esperar. Como hoje tudo é rápido, instantâneo e possível, esperar virou um martírio. Haja livro, filme ou You Tube que saciem nossa ansiedade. Nada adianta, nada acelera. E é assim mesmo. E tem que ser. Lembro que um dia fui visitar a plantação de Fred Karam. Ele planta diversas espécies de palmeiras incríveis e me contou sobre o quão diferente era a noção de tempo do universo daquelas palmeiras para o mundo em que vivemos! Perguntei para ele como se "fazia" uma palmeira e ele me disse que através da semente, que é aquele coquinho que tem dentro do butiá. Ele pode demorar sei lá quantos meses pra germinar, e mais muitos outros até nascer a primeira folha, e por aí vai uma conta a perder de vista. Assim, nosso corpo também tem lá suas restrições e exigências, apesar dos avanços científicos. Lembro também de uma conversa sobre procedimentos cirúrgicos ou odontológicos que estava tendo com um grupo de amigos quando exclamei que, apesar de todos esses avanços, tais procedimentos ainda eram muito arcaicos. Ao que Daniel Acosta simplesmente rebateu: "arcaico é o corpo". E é. Então cá estou eu, reclamando como se fosse o único ser vivo que precisou passar por uma cirurgia, e como se tivesse sido a cirurgia mais grave do mundo, quando centenas e milhares de pessoas fazem isso e coisas bem mais complicadas todos os dias. Mas, cada um pensa ou tenta elaborar essa experiência do seu jeito. E o meu talvez seja percebendo apenas o óbvio e tendo que enfrentar essa ansiedade da reconquista de um cotidiano no qual já estava viciado, sem perceber. Só agora pude ver na minha frente, por exemplo, uma estante abarrotada de livros que fui comprando "para um dia que tivesse um tempinho ler". E ali estão todos, sem conseguir me arrebatar. Peguei um deles. Já lido e relido. Adoro rever coisas que gosto. Compro filmes e vejo várias vezes, releio textos ou artigos. Até mesmo e-mails. O livro que peguei chama-se "Corpo e sentido". Trata-se de uma coletânea de artigos de semiótica, dentre os quais um de um autor que admiro muito e que felizmente tive a oportunidade de conhecer e manter contato: Eric Landowski. O artigo chama-se "Viagem às nascentes do sentido" e é bastante elucidativo no que diz respeito à relação que mantemos com nosso corpo e com a ciência. À tarde, retomei as sessões de fisioterapia com um novo fisioterapeuta em Pelotas. Foi um bom momento do dia. À noite, minha mãe veio ao apartamento e montou a árvore de Natal e isso também foi ótimo. Sob a árvore, coloquei os vários presentes e recados e mensagens que as pessoas me trouxeram nas últimas semanas. E assim vai-se construindo essa espera até o dia em que não se perceba mais nada e o cotidiano apenas flua com todos os mesmos problemas e conflitos de sempre.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
A volta
Meu retorno para Pelotas havia sido programado para quinta-feira. Assim, minha irmã foi na quarta para Porto Alegre, acompanhada de meu sobrinho para que eu e minha mãe, que permanecia lá comigo, pudessemos voltar bem acomodados, trazendo toda bagagem e sem depender de horários, táxis e essas coisas todas que se tornam um empecilho quando temos qualquer tipo de limitação. Liguei para meu médico e ele disse que gostaria de me ver mais uma vez antes do retorno, e isso seria possível apenas na sexta-feira pela manhã. Ok, então os planos foram alterados. De qualquer maneira na quinta fui até o Instituto de Cardiologia levar os doces de Pelotas que havia mandado fazer para dar como forma de agradecimento e atenção àquelas pessoas que haviam me acompanhado durante o período em que passei ali. Todos os doces em embalagens bonitas, com cartões de agradecimento pela atenção, dedicação e paciência dispensados. Já estava fazendo fisioterapia e retomando as forças com a cautela necessária e movido pelo interesse em me ajudar a avançar no que fosse possível, ao invés de ficar entregue sobre uma cama ou um sofá o dia inteiro. Havia selecionado uma quantidade enorme de livros, mas não consegui lê-los. Estranha essa relação da gente com os livros, dos momentos e estados de espírito que eles podem suscitar. Acabei lendo algumas coisas mais técnicas e deixando de lado as Lispector, Proust e Freud que havia selecionado. Ao chegar no Instituto de cardiologia fui direto a UPO e apareci na porta com as caixas. Foi um momento comovente ser reconhecido pelos técnicos, enfermeiros, médicos e funcionários que trabalham lá e que vieram até mim "perguntar se eu já ia embora"! Respondi que já havia ido, mas havia retornado para entregar para eles aquela lembrança simbólica pelos cuidados que eles prestaram a mim durante aqueles dias. E tenho a impressão de ter percebido uma espécie de felicidade brotar nos olhos de cada um deles, nem sei bem porque. Mas eu vi isso. Talvez porque eu estivesse bem; talvez porque eu tivesse vindo agradecê-los; talvez porque eu tivesse simplesmente lembrado deles. Me disseram que Seu Geraldo havia sido sumbetido a outra cirurgia e naquela tarde iria para o quarto. Também passei na secretaria da cirurgia e deixei doces para os médicos que me acompanharam. Na sexta-feira pela manhã, voltei para a consulta com Dr. Rossi. Como sempre ele foi agradável, conversamos sobre vários assuntos, ele me examinou e disse que meu quadro estava evoluindo muito bem. Brinquei com ele sobre meu "gerador de impulsos cardíacos" e disse que agora eu era movido a bateria. Que começava achar aquilo tão seguro que, mesmo que uma pessoa morresse, o coração iria continuar batendo! Planejamos as próximas consultas e procedimentos. Saí da consulta e passei no quarto de Seu Geraldo, que era dividido com outros três pacientes. Ele estava frágil, mas sentado. Me viu, reconheceu, me chamou pelo nome: "Lauer!" e disse que em breve iria para casa. Disse para ele que já estava bem e ia embora naquele momento, mas antes passei por ali para deixar para ele uma lata de bolachinhas, lhe desejar melhoras e um feliz 2011. Almocei em Porto Alegre e rumamos para Pelotas. Tive uma sensação de conforto e tranquilidade ao chegar. Pode ser a sensação da volta para casa. Minha mãe me ajudou a acomodar todas as coisas no apartamento e já queria montar a árvore de Natal, mas eu determinei que não, ela estava muito cansada e deveria repousar um pouco. Mães têm esse fôlego! Mas a gente deve ter zelo. Então fiquei só no apartamento, depois de muitos dias sem estar só. Avaliei um pouco minhas limitações momentâneas e acredito que sejam elas que me ajudarão em algumas "escolhas" que talvez eu precise fazer daqui para frente, muito embora eu não acredito muito que a gente "escolha" de forma consciente as coisas. Abri as janelas para deixar entrar o ar fresco do entardecer, sentei numa poltrona e comecei a ouvir Iggy Pop "Les Feuilles mortes".
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Cyborg
Passados os dez dias definidos como prazo para avaliar a evolução de meus batimentos cardíacos, os médicos, sob a orientação do excelente, ponderado e competente Dr. Renato Kalil, vieram conversar comigo para confirmar que seria mais prudente a implantação de um marcapasso definitivo. A questão era a seguinte: meu coração estava ligado a um "gerador" externo, regulado para 40 batidas por minuto; as batidas oscilavam em torno de 50 a 55, ou seja ultrapassavam o marcapasso. O batimento numa pessoa normal é entre 60 e 80 por minuto. Há casos exepcionais, de pessoas que ultrapassam ou não alcançam esses índices e vivem bem. Meu primo comentou comigo que Falcão - o jogador - tinha uma frequência média de 30 batidas por minuto e isso lhe permitia alcançar alta velocidade em campo. Mas o fato não era esse, mas outro: o nível de oxigenação do sangue (tem termos técnicos para todas essas coisas, mas para minha cabeça já era demais). Esse índice de oxigenação em mim estava em torno de 80 a 85%, ou seja, baixo. Então eu corria o risco de ter feito toda a correção da CIA, CIV e EP com a tal cirurgia e continuar na mesma: me sentindo cansado, lento e com uma sobrecarga ao coração. Nesse momento comecei a apelar para o humor. Disse para os médicos que achava o termo "marcapasso" bem démodé, que preferia que fosse um tipo de chip ou então que começassemos uma pesquisa com Steve Jobs para desenvolver um aplicativo para o iPhone que ajudasse a controlar a freqüência cardíaca e os níveis de oxigenação do sangue! Também brinquei com os médicos que só me submeteria a isso se eles me dessem a garantia de viver pelo menos até os cem anos e ainda poder me tornar campeão de tênis!!! Passado isso, na manhã seguinte, sou conduzido novamente para o bloco cirúrgico para instalar o "gerador de impulso cardíaco" - um nome mais técnico para o tal marcapasso. O anestesista conversou comigo e informou que seria um procedimento simples - o ótimo é que lá tudo é "simples" - com anestesia local, eu ficaria sedado e não sentiria nada. E assim foi. Quando acordei ainda estavam com aquele pano azul bloqueando minha visão do corpo, mas finalizando alguma coisa que eu não podia - nem queria - ver. Saí dali e voltei para "meu" bloco dos transplantados na companhia de Seu Geraldo. Era esquisito responder para os médicos ou enfermeiros a pergunta: "Como você está se sentindo agora?" O corpo da gente tem tanto fio, tubo, cano que não tem o que sentir. Não dá pra saber direito nem se o que eu tenho é falta de ar, ou se é a posição meio de cabeça para baixo ou se é um outro fio que sai de algum lugar que a gente nem imagina. A partir daí passei mais dois dias em observação para saber se estava tudo sob controle. Nova bateria de exames, mas parece que tudo ainda não está 100%, pois talvez seja assim mesmo. O organismo precisa se readaptar a algumas de suas funções aos poucos - afinal, foram 41 anos funcionando de uma determinada maneira - com exercícios físicos e respiratórios para começar, gradativamente, a melhorar minha qualidade de vida. Assim espero. Fiquei sabendo, ainda no hospital, que minha amiga Alessandra havia passado por uma situação de alto risco na gravidez e precisou ser levada às pressas para o Rio. O bebê nasceu prematuramente, mas ambos já passavam bem. Liguei do hospital para ela e Tonton e também comecei a ligar e receber ligações de vários outros amigos que sempre estavam pedindo notícias. Isso foi me trazendo, lentamente, ao meu mundo. Ao sair do hospital meu destino, por alguns dias, é o apartamento de meu amigo Brod, que está no Uruguay. Não pude finalizar um auto-retrato para uma exposição que inaugurou no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, em Pelotas, na semana em que fui internado. Mas nesta minha vivência, elaborei um auto-retrato que postarei no blog e FB tão logo tenha concluído, espero que nos próximos dias com um texto que sintetiza toda essa experiência. Minha necessidade de escrita talvez tenha sido uma necessidade interna de sobrevivência, e pode ser muito chata para as pessoas lerem. Já estou começando exercícios com um fisioterapeuta e fazendo caminhadas diárias. Também já comecei a procurar especialistas que possasm tratar minhas cicatrizes e deixá-las o mais discretas possível. Na quinta-feira deverei voltar para Pelotas, minha irmã virá me buscar. Fiz questão de encomendar muitos doces de Pelotas, daqueles mais bonitos e feitos pelas pessoas mais talentosas para distribuir no IC para todos os que direta ou indiretamente me ajudaram. Soube que Seu Geraldo havia comentado "que seu companheiro de quarto o havia ababndonado". Mas eu também passarei por lá antes de partir. Ainda estou pensando na celebração que pretendo realizar para todas as pessoas que de qualquer maneira manifestaram seu apoio, solidariedade e força neste momento, porque eu devo muito da minha capacidade de sobrevivência à crença que elas depositaram em mim! E como já havia afirmado anteriormente, não acredito em grandes redenções, mas em sobreposição de sentidos. Sou um semioticista. Saí do IC vestindo calça levi's e sapato comprados em NYC, camisa A|X, óculos D&G. Mas muitas outras coisas haviam sido sobrepostas aos sentidos que eu dava para vida.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
O vôo do cisne
Foi a essa altura de desorientação total que precisei encontrar alternativas para me situar naquele mundo, qualquer coisa que me ancorasse em algum lugar. Foi então que pedi papel e caneta para desenhar ou escrever. Fiz um desenho do lugar, detalhado, mas isso não me dizia muita coisa a não ser consolidar aquela imagem. Decidi então começar a escrever uma espécie de memorial, que para mim era muito mais um auto-retrato, do que qualquer imagem apreendida ali. A nova sala era melhor que as anteriores, mais ampla, espaçosa, equipada e tinha um banheiro privativo. Cheguei cedo e mais tarde trouxeram meu comapnheiro de bloco: "Seu" Geraldo. Um homem negro ou mulato, de sessenta e poucos anos, simples, mecânico "mas só de carros velhos". Parece que estava lá desde o dia 06 de novembro. Foi consultar e precisou ficar para fazer não sei quantas safenas. Ficou com um problema num dreno que eliminava constantemente um líquido com bolhas de ar. Pelo menos foi isso que eu entendi. Parecia uma pessoa de boa índole e tinha aquele ar resignado das pessoas simples, que não reclamam, não gemem, não contestam. Estão ali sem nem saber porque. Uma cumplicidade inevitável se estabeleceu entre nós. Algumas vezes tentei interceder por ele junto aos enfermeiros quando achava que as coisas não iam bem. Colocaram uma TV e apesar de eu não gostar de ver, aquilo foi uma espécie de vínculo entre aquele lugar onde eu estava e o mundo real.
Então lembrei de conversas com Roberto Penteado (filho) que havia me dito, com seu jeito sempre muito comedido, "que essas experiências mudavam alguma coisa na vida da gente". Era essa transformação que eu via acontecer em mim naquele momento, quando minhas irmãs vinham me visitar e traziam a lista das pessoas que haviam ligado, ou procurado ou pedido alguma informação ou manifestado alguma forma de solidariedade de qualquer maneira e de qualquer lugar em que se encontrassem, fossem amigos, profissionais ou familiares. Passei a admirar profundamente aqueles profissionais que atuavam ali, com responsabilidade e seridade extremas. Cheguei pensar nos salários que deveriam receber e a responsabilidade que possuiam e lembrei dos muitos "valores" que muitas pessoas que eu conhecia exigiam por muito menos. Na primeira noite que dormi no bloco dos transplantados, com um sonífero muito leve, acordei no meio da noite com a sensação de que era a única pessoa perdida no vazio do universo. Acho que pela primeira vez na vida senti uma real necessidade de toque. Lembrei de uma das primeiras noites em que um fisioterapeuta, Guilherme, baixou a cabeça até a altura da minha, passou a mão no meu braço e sussurrou baixo: "você vai dormir bem Lauer". Aquela sensação foi reconfortante e fez com que eu me sentisse em qualquer lugar da minha vida. Meu médico indicou que eu permanecesse pelo menos uma semana na UPO para avaliar o desempenho dos batimentos cardíacos. Na noite de quarta assisti procedimentos indescritíveis em Seu Geraldo, que como sempre se mantinha sereno como se nada acontecesse, sem reclamar de dor ou qualquer incomodo, até que a equipe médica disse simplesmente: "Seu Geraldo, vamos precisar operá-lo novamente". Resolvi encarar a noite sem soníferos, fosse como fosse. Dormiria quando tivesse sono, e permaneceria acordado quando assim o estivesse. Ali não havia mais uma lógica para o dia ou para a noite. Conversei com Mara, a fisioterapeuta de plantão e foi reconfortante. As psicólogas não apareceram mais. Os momentos mais felizes e esperados passaram a ser os horários de visitas, as sessões de fisioterapia e beber suco ou iogurte. E assim continuaram os dias. Começava a pensar que a vida era uma série de convenções e que eu havia escolhido algumas, um mundo de charme e glamour, do qual não me arrependia. Mas as vezes a gente também precisa ver o outro lado das coisas. Talvez isso não vá nos mudar. Não acredito nesse tipo de "redenção". Mas essas experiências sobrepõe outros sentidos à visão original que tinhamos do mundo. Na manhã seguinte chegou a enfermeira para verificar nossos sinais vitais e trazer o café. Virou-se e perguntou: "O que aconteceu que o senhor está tão triste hoje Seu Geraldo?"
Então lembrei de conversas com Roberto Penteado (filho) que havia me dito, com seu jeito sempre muito comedido, "que essas experiências mudavam alguma coisa na vida da gente". Era essa transformação que eu via acontecer em mim naquele momento, quando minhas irmãs vinham me visitar e traziam a lista das pessoas que haviam ligado, ou procurado ou pedido alguma informação ou manifestado alguma forma de solidariedade de qualquer maneira e de qualquer lugar em que se encontrassem, fossem amigos, profissionais ou familiares. Passei a admirar profundamente aqueles profissionais que atuavam ali, com responsabilidade e seridade extremas. Cheguei pensar nos salários que deveriam receber e a responsabilidade que possuiam e lembrei dos muitos "valores" que muitas pessoas que eu conhecia exigiam por muito menos. Na primeira noite que dormi no bloco dos transplantados, com um sonífero muito leve, acordei no meio da noite com a sensação de que era a única pessoa perdida no vazio do universo. Acho que pela primeira vez na vida senti uma real necessidade de toque. Lembrei de uma das primeiras noites em que um fisioterapeuta, Guilherme, baixou a cabeça até a altura da minha, passou a mão no meu braço e sussurrou baixo: "você vai dormir bem Lauer". Aquela sensação foi reconfortante e fez com que eu me sentisse em qualquer lugar da minha vida. Meu médico indicou que eu permanecesse pelo menos uma semana na UPO para avaliar o desempenho dos batimentos cardíacos. Na noite de quarta assisti procedimentos indescritíveis em Seu Geraldo, que como sempre se mantinha sereno como se nada acontecesse, sem reclamar de dor ou qualquer incomodo, até que a equipe médica disse simplesmente: "Seu Geraldo, vamos precisar operá-lo novamente". Resolvi encarar a noite sem soníferos, fosse como fosse. Dormiria quando tivesse sono, e permaneceria acordado quando assim o estivesse. Ali não havia mais uma lógica para o dia ou para a noite. Conversei com Mara, a fisioterapeuta de plantão e foi reconfortante. As psicólogas não apareceram mais. Os momentos mais felizes e esperados passaram a ser os horários de visitas, as sessões de fisioterapia e beber suco ou iogurte. E assim continuaram os dias. Começava a pensar que a vida era uma série de convenções e que eu havia escolhido algumas, um mundo de charme e glamour, do qual não me arrependia. Mas as vezes a gente também precisa ver o outro lado das coisas. Talvez isso não vá nos mudar. Não acredito nesse tipo de "redenção". Mas essas experiências sobrepõe outros sentidos à visão original que tinhamos do mundo. Na manhã seguinte chegou a enfermeira para verificar nossos sinais vitais e trazer o café. Virou-se e perguntou: "O que aconteceu que o senhor está tão triste hoje Seu Geraldo?"
domingo, 12 de dezembro de 2010
A rotina na UPO
Nos dias seguintes fiquei sabendo que permaneceria na UPO com o gerador externo de batimentos cardíacos até que meu coração alcançasse os índices normais - de 60 a 80 batidas por minuto, eu estava com 45. Isso poderia demorar três dias para os mais pragmáticos, ou até quinze para os mais cautelosos. Começava a tentar me acostumar com a idéia - e até já achava que seria melhor estar com um marcapasso! - e aos poucos me adaptava à rotina daquela cirurgia, que era o resultado de 40 anos de indecisão. Pouco a pouco fui conhecendo as estruturas e papéis hierárquicos claramente definidos naquele ambiente. E todas nuances que matizariam meus dias: as escalas de técnicos, de enfermeiros, de médicos, de fisioterapeutas, do pessoal da limpeza e de "nós", os objetos. A UPO pode ser considerada realmente um não lugar: os pacientes que saem da cirurgia são levados diretamente prá lá para acordar, ser desentubados, terem os sinais vitais avaliados e serem encaminhados para o quarto ou para UTI, dependendo da gravidade. Mas o meu caso foi diferente. Na UPO sentia um misto de dor, angústia e desconforto. Na primeira noite, ou seja, depois da sensação de ter "vivenciado" um dia, não consegui fechar os olhos. Nesse momento, e em minha ingenuidade, cheguei a uma conclusão de que se tratava da impossibilidade de "desintegração do ego". Já havia feito ecercícios respiratórios noutras situações da minha vida, sabia que ajudavam a relaxar, mas nunca tinha exercitado meditação. De maneira que minhas tentativas se mostravam ineficientes: quando começava um exercício respiratório,ou era interrompido pelo sono, mas um sono agitado, ou por alguma visão interna daquele ambiente hostil e totalmente estranho. A respiração era, assim, interrompida por um sobressalto que misturava uma sensação de falta de ar e/ou alguma cena estranha do entorno. Aos poucos comecei a conhecer as pessoas da UPO, os turnos, os grupos, as práticas, e a "comer líquidos". Na noite seguinte pedi para os médicos de plantão algo que me ajudasse a dormir - pensava que poderia ter uma noite tranquila, mesmo enrolado em todos aqueles fios, drenos e tubos enfiados pelo corpo. Não sei se foi a mistura de remédios, algum tipo de interação ou sei lá o que, mas adormeci logo em seguida. Não lembro de ter tomado remédios para dormir alguma vez. Porém, acordei de sobressalto umas três vezez ao longo da noite, sentado na cama e querendo fugir. Uma enfermeira viu e me repreendeu; permaneci na cama me contorcendo de ansiedade e esperando o dia amanhecer. A partir daí essa foi a paradoxal rotina da UPO que durou onze dias: uma sensação de não conseguir - nem querer - estabelecer algum vínculo com aquele lugar de dor e sofrimento, associado a difícil e quase impossível tentativa de resgatar memórias e lembranças de meu mundo anterior, pois, além daquele entorno, havia um desconforto físico contínuo. Na noite seguinte fui trocado de bloco. Me deixaram num bloco mais central de onde via outros três pacientes pós-operatórios. Minha tia foi me visitar e eu solicitei que ela fechasse a cortina de meu bloco, mas a enfermeira informou que o procedimento padrão era as cortinas permanecerem abertas. Nessa noite relatei o problema do sono ocorrido com os remédios para dormir e a medicação foi substituída. Às 5h da manhã eu sonhava quando chegou o técnico com o aprelho de Raio X. Me ergueram, colocaram a chapa fria nas minhas costas, pediram para eu respirar fundo enquanto aquela máquina que parecia saída de uma série de Guerra nas Estrelas subia em minha direção para fazer o exame. Quando o técnico se afastou de mim com aquele robô e me deixou descoberto sobre o leito fui acometido por uma sensação de pânico e terror por não saber o que era sonho ou realidade, até a enfermeira sussurrar no meu ouvido que era um exame, mas que eu também estava sonhando. No dia seguinte, mais uma novidade: seria trocado novamente de bloco. Iria para o bloco dos transplantados, pois era mais reservado e ali eu e outro paciente ficaríamos mais sossegados. "Mais um paciente?" Fiquei incrédulo, pensei nos meus planos de saúde e quase cheguei agitar um "motim" chamando minha família e reivindicando meus direitos! Mas já não entendia bem o que acontecia, então decidi deixar as coisas assim mesmo e ver o que aconteceria...
sábado, 11 de dezembro de 2010
Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes, antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.
A paixão segundo GH, Clarice Lispector.
A paixão segundo GH, Clarice Lispector.
O pacto com a ciência
Acordei e Adriane estava na minha frente: "Tudo bem Lauer? Lembra que combinamos que estaria te esperando? Correu tudo bem na cirurgia". Acho que talvez eu tenha balbuciado algo como "dá notícias pra Lúcia e para o Rogério". Depois, apaguei novamente. Não lembro de ter comido sorvete após ter sido desentubado. Acordei na UPO sentindo uma sede como se fosse a última alma do Sahara. Chamava as enfermeiras que apenas molhavavam minha boca com gaze. Era uma cena bíblica, ancestral, aquela necessidade de água e aquelas gotas pingando na boca. Em dado momento começaram a me dar água para beber. Bebia com tanta avidez que vomitava/espirrava segundos depois. Não me deram mais água e eu roubei um copo. Uma enfermeira viu e pulou em cima de mim. Disse que nem molharia mais minha boca, pois eu "havia feito arte". Reclamei de dor e eles injetaram morfina. Apaguei novamente. Ou permaneci naquele estado letárgico que não se sabe se é sonho ou realidade. Via pessoas passarem prá lá e prá cá, colocavam remédios nos drenos e tiravam sangue para exames. Um anúncio escrito numa porta lateral a minha cama povoou meus olhos durante dois ou três dias que pareceram séculos: ISOLAMENTO. Os leitos eram divididos com paredes de vidro jateado, no interior das quais haviam reproduções de grandes mestres da pintura. Ao meu lado havia um Van Gogh que formava um jogo de reflexos com a palavra ISOLAMENTO que era lida em todos os sentidos e direções possíveis. Começaram as visitas do cirurgião e da família. No domingo à tarde um médico de plantão, que me parecia um garoto, veio até mim e disparou à queima roupa: "você ainda está com o marcapasso mas seu coração não retomou seu ritmo. Se isso persistir nós precisaremos instalar um marcapasso definitivo!!!" Aquilo caiu como uma bomba!!! Minhas irmãs foram me visitar e pedi para que avisassem ou chamassem todos meus amigos médicos. Duas horas depois o Dr. Roberto Oliveira, primo de meu pai, estava lá mas eu permanecia inconformado por trocar seis por meia dúzia: uma doença assintomática, por uma cura que exigiria muito mais cuidados e atenções!
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A chegada
25 de novembro de 2010. Cheguei ao Instituto de Cardiologia de Porto Alegre às 9h, vestindo calça A|X, tênis Nike, Pólo Ralph Lauren branca e óculos D&G. Minha mãe, irmã e cunhado já me aguardavam na construção tipicamente anos 80 do IC. Em seguida chegaram mais tios e tias. Preenchi os documentos para dar entrada no hospital e fomos conduzidos ao quarto 302/sul. Era um quarto de frente para Rua Princesa Isabel e com uma árvore bem à altura da janela. Trabalhei alucinadamente em meu laptop programando ações para minha ausência, respondendo e-mails e telefonemas. Ao longo do dia passaram nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, anestesista e cirurgião para prestar esclarecimentos sobre a cirurgia. Estava tranquilo e determinado. imaginando as dificuldades que me aguardavam nos próximos dias. Muitos exames ao longo da tarde. À noite, antes de dormir, passou uma enfermeira para raspar meus pêlos do corpo, dar as instruções para o banho e fazer a higiene pré-cirúrgica. Dormi tranquilo. Minha mãe ficou no hospital e às 6h30min fomos despertos por Adriane Mitidieri e Gua Vianna. Logo em seguida chegou a enfermeira e continuaram a chegar outros familiares. Eu havia sido taxativo com todos de que não queria cenas dramáticas. E que não queria visitas na UPO - Unidade Pós Operatória. E que gostaria de que quem viesse ao hospital estivesse praticamente em traje de festa! (Depois entendi que todas as restrições que fiz, referiam-se ao fato de que não querer que os outros sofressem por mim. muito provavelmente eles sabiam que eu iria passar, mas esse seria um momento meu).
Adriane me acompanhou junto à maca até as portas da sala de cirurgia. Suas palavras, como sempre, foram confortantes. Ao entrar no bloco cirúrgico a anestesista se apresentou, segurou meu braço, e me encaminhou para um local onde acho que foi a cirurgia. Disse: "Lauer, eu vou pegar uma artéria no seu pulso. Isso dói, mas passa logo". Senti a agulha e ela disse para sua assistente: "Essas artérias que dançam, são impossíveis. Vou ter que pegá-la por cima". Apaguei.
domingo, 19 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Mishima - O Pavilhão Dourado
"... pois a simples obstinação pela beleza leva as pessoas ao encontro da mais sombria das ideologias deste mundo, sem que elas se deem conta disso. Quem sabe o homem não tenha sido feito para ser assim?"
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
"Todo aquele que não consegue fazer frente à vida enquanto está vivo precisa de uma das mãos para afastar parte do desespero que sente perante o seu destino - com pouco êxito -, mas com a outra ele pode anotar o que observa entre as ruínas, porque é capaz de ver qualquer coisa diferente (e muito mais) do que os outros vêem; apesar de tudo, mesmo morto durante a vida, ele é o verdadeiro sobrevivente". Franz Kafka in Diaries of Franz Kafka. Extraído de Andy Warhol, Cinemateca Portuguesa, julho de 1990.
Assinar:
Postagens (Atom)
