Foi a essa altura de desorientação total que precisei encontrar alternativas para me situar naquele mundo, qualquer coisa que me ancorasse em algum lugar. Foi então que pedi papel e caneta para desenhar ou escrever. Fiz um desenho do lugar, detalhado, mas isso não me dizia muita coisa a não ser consolidar aquela imagem. Decidi então começar a escrever uma espécie de memorial, que para mim era muito mais um auto-retrato, do que qualquer imagem apreendida ali. A nova sala era melhor que as anteriores, mais ampla, espaçosa, equipada e tinha um banheiro privativo. Cheguei cedo e mais tarde trouxeram meu comapnheiro de bloco: "Seu" Geraldo. Um homem negro ou mulato, de sessenta e poucos anos, simples, mecânico "mas só de carros velhos". Parece que estava lá desde o dia 06 de novembro. Foi consultar e precisou ficar para fazer não sei quantas safenas. Ficou com um problema num dreno que eliminava constantemente um líquido com bolhas de ar. Pelo menos foi isso que eu entendi. Parecia uma pessoa de boa índole e tinha aquele ar resignado das pessoas simples, que não reclamam, não gemem, não contestam. Estão ali sem nem saber porque. Uma cumplicidade inevitável se estabeleceu entre nós. Algumas vezes tentei interceder por ele junto aos enfermeiros quando achava que as coisas não iam bem. Colocaram uma TV e apesar de eu não gostar de ver, aquilo foi uma espécie de vínculo entre aquele lugar onde eu estava e o mundo real.
Então lembrei de conversas com Roberto Penteado (filho) que havia me dito, com seu jeito sempre muito comedido, "que essas experiências mudavam alguma coisa na vida da gente". Era essa transformação que eu via acontecer em mim naquele momento, quando minhas irmãs vinham me visitar e traziam a lista das pessoas que haviam ligado, ou procurado ou pedido alguma informação ou manifestado alguma forma de solidariedade de qualquer maneira e de qualquer lugar em que se encontrassem, fossem amigos, profissionais ou familiares. Passei a admirar profundamente aqueles profissionais que atuavam ali, com responsabilidade e seridade extremas. Cheguei pensar nos salários que deveriam receber e a responsabilidade que possuiam e lembrei dos muitos "valores" que muitas pessoas que eu conhecia exigiam por muito menos. Na primeira noite que dormi no bloco dos transplantados, com um sonífero muito leve, acordei no meio da noite com a sensação de que era a única pessoa perdida no vazio do universo. Acho que pela primeira vez na vida senti uma real necessidade de toque. Lembrei de uma das primeiras noites em que um fisioterapeuta, Guilherme, baixou a cabeça até a altura da minha, passou a mão no meu braço e sussurrou baixo: "você vai dormir bem Lauer". Aquela sensação foi reconfortante e fez com que eu me sentisse em qualquer lugar da minha vida. Meu médico indicou que eu permanecesse pelo menos uma semana na UPO para avaliar o desempenho dos batimentos cardíacos. Na noite de quarta assisti procedimentos indescritíveis em Seu Geraldo, que como sempre se mantinha sereno como se nada acontecesse, sem reclamar de dor ou qualquer incomodo, até que a equipe médica disse simplesmente: "Seu Geraldo, vamos precisar operá-lo novamente". Resolvi encarar a noite sem soníferos, fosse como fosse. Dormiria quando tivesse sono, e permaneceria acordado quando assim o estivesse. Ali não havia mais uma lógica para o dia ou para a noite. Conversei com Mara, a fisioterapeuta de plantão e foi reconfortante. As psicólogas não apareceram mais. Os momentos mais felizes e esperados passaram a ser os horários de visitas, as sessões de fisioterapia e beber suco ou iogurte. E assim continuaram os dias. Começava a pensar que a vida era uma série de convenções e que eu havia escolhido algumas, um mundo de charme e glamour, do qual não me arrependia. Mas as vezes a gente também precisa ver o outro lado das coisas. Talvez isso não vá nos mudar. Não acredito nesse tipo de "redenção". Mas essas experiências sobrepõe outros sentidos à visão original que tinhamos do mundo. Na manhã seguinte chegou a enfermeira para verificar nossos sinais vitais e trazer o café. Virou-se e perguntou: "O que aconteceu que o senhor está tão triste hoje Seu Geraldo?"
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
A rotina na UPO
Nos dias seguintes fiquei sabendo que permaneceria na UPO com o gerador externo de batimentos cardíacos até que meu coração alcançasse os índices normais - de 60 a 80 batidas por minuto, eu estava com 45. Isso poderia demorar três dias para os mais pragmáticos, ou até quinze para os mais cautelosos. Começava a tentar me acostumar com a idéia - e até já achava que seria melhor estar com um marcapasso! - e aos poucos me adaptava à rotina daquela cirurgia, que era o resultado de 40 anos de indecisão. Pouco a pouco fui conhecendo as estruturas e papéis hierárquicos claramente definidos naquele ambiente. E todas nuances que matizariam meus dias: as escalas de técnicos, de enfermeiros, de médicos, de fisioterapeutas, do pessoal da limpeza e de "nós", os objetos. A UPO pode ser considerada realmente um não lugar: os pacientes que saem da cirurgia são levados diretamente prá lá para acordar, ser desentubados, terem os sinais vitais avaliados e serem encaminhados para o quarto ou para UTI, dependendo da gravidade. Mas o meu caso foi diferente. Na UPO sentia um misto de dor, angústia e desconforto. Na primeira noite, ou seja, depois da sensação de ter "vivenciado" um dia, não consegui fechar os olhos. Nesse momento, e em minha ingenuidade, cheguei a uma conclusão de que se tratava da impossibilidade de "desintegração do ego". Já havia feito ecercícios respiratórios noutras situações da minha vida, sabia que ajudavam a relaxar, mas nunca tinha exercitado meditação. De maneira que minhas tentativas se mostravam ineficientes: quando começava um exercício respiratório,ou era interrompido pelo sono, mas um sono agitado, ou por alguma visão interna daquele ambiente hostil e totalmente estranho. A respiração era, assim, interrompida por um sobressalto que misturava uma sensação de falta de ar e/ou alguma cena estranha do entorno. Aos poucos comecei a conhecer as pessoas da UPO, os turnos, os grupos, as práticas, e a "comer líquidos". Na noite seguinte pedi para os médicos de plantão algo que me ajudasse a dormir - pensava que poderia ter uma noite tranquila, mesmo enrolado em todos aqueles fios, drenos e tubos enfiados pelo corpo. Não sei se foi a mistura de remédios, algum tipo de interação ou sei lá o que, mas adormeci logo em seguida. Não lembro de ter tomado remédios para dormir alguma vez. Porém, acordei de sobressalto umas três vezez ao longo da noite, sentado na cama e querendo fugir. Uma enfermeira viu e me repreendeu; permaneci na cama me contorcendo de ansiedade e esperando o dia amanhecer. A partir daí essa foi a paradoxal rotina da UPO que durou onze dias: uma sensação de não conseguir - nem querer - estabelecer algum vínculo com aquele lugar de dor e sofrimento, associado a difícil e quase impossível tentativa de resgatar memórias e lembranças de meu mundo anterior, pois, além daquele entorno, havia um desconforto físico contínuo. Na noite seguinte fui trocado de bloco. Me deixaram num bloco mais central de onde via outros três pacientes pós-operatórios. Minha tia foi me visitar e eu solicitei que ela fechasse a cortina de meu bloco, mas a enfermeira informou que o procedimento padrão era as cortinas permanecerem abertas. Nessa noite relatei o problema do sono ocorrido com os remédios para dormir e a medicação foi substituída. Às 5h da manhã eu sonhava quando chegou o técnico com o aprelho de Raio X. Me ergueram, colocaram a chapa fria nas minhas costas, pediram para eu respirar fundo enquanto aquela máquina que parecia saída de uma série de Guerra nas Estrelas subia em minha direção para fazer o exame. Quando o técnico se afastou de mim com aquele robô e me deixou descoberto sobre o leito fui acometido por uma sensação de pânico e terror por não saber o que era sonho ou realidade, até a enfermeira sussurrar no meu ouvido que era um exame, mas que eu também estava sonhando. No dia seguinte, mais uma novidade: seria trocado novamente de bloco. Iria para o bloco dos transplantados, pois era mais reservado e ali eu e outro paciente ficaríamos mais sossegados. "Mais um paciente?" Fiquei incrédulo, pensei nos meus planos de saúde e quase cheguei agitar um "motim" chamando minha família e reivindicando meus direitos! Mas já não entendia bem o que acontecia, então decidi deixar as coisas assim mesmo e ver o que aconteceria...
sábado, 11 de dezembro de 2010
Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes, antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.
A paixão segundo GH, Clarice Lispector.
A paixão segundo GH, Clarice Lispector.
O pacto com a ciência
Acordei e Adriane estava na minha frente: "Tudo bem Lauer? Lembra que combinamos que estaria te esperando? Correu tudo bem na cirurgia". Acho que talvez eu tenha balbuciado algo como "dá notícias pra Lúcia e para o Rogério". Depois, apaguei novamente. Não lembro de ter comido sorvete após ter sido desentubado. Acordei na UPO sentindo uma sede como se fosse a última alma do Sahara. Chamava as enfermeiras que apenas molhavavam minha boca com gaze. Era uma cena bíblica, ancestral, aquela necessidade de água e aquelas gotas pingando na boca. Em dado momento começaram a me dar água para beber. Bebia com tanta avidez que vomitava/espirrava segundos depois. Não me deram mais água e eu roubei um copo. Uma enfermeira viu e pulou em cima de mim. Disse que nem molharia mais minha boca, pois eu "havia feito arte". Reclamei de dor e eles injetaram morfina. Apaguei novamente. Ou permaneci naquele estado letárgico que não se sabe se é sonho ou realidade. Via pessoas passarem prá lá e prá cá, colocavam remédios nos drenos e tiravam sangue para exames. Um anúncio escrito numa porta lateral a minha cama povoou meus olhos durante dois ou três dias que pareceram séculos: ISOLAMENTO. Os leitos eram divididos com paredes de vidro jateado, no interior das quais haviam reproduções de grandes mestres da pintura. Ao meu lado havia um Van Gogh que formava um jogo de reflexos com a palavra ISOLAMENTO que era lida em todos os sentidos e direções possíveis. Começaram as visitas do cirurgião e da família. No domingo à tarde um médico de plantão, que me parecia um garoto, veio até mim e disparou à queima roupa: "você ainda está com o marcapasso mas seu coração não retomou seu ritmo. Se isso persistir nós precisaremos instalar um marcapasso definitivo!!!" Aquilo caiu como uma bomba!!! Minhas irmãs foram me visitar e pedi para que avisassem ou chamassem todos meus amigos médicos. Duas horas depois o Dr. Roberto Oliveira, primo de meu pai, estava lá mas eu permanecia inconformado por trocar seis por meia dúzia: uma doença assintomática, por uma cura que exigiria muito mais cuidados e atenções!
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A chegada
25 de novembro de 2010. Cheguei ao Instituto de Cardiologia de Porto Alegre às 9h, vestindo calça A|X, tênis Nike, Pólo Ralph Lauren branca e óculos D&G. Minha mãe, irmã e cunhado já me aguardavam na construção tipicamente anos 80 do IC. Em seguida chegaram mais tios e tias. Preenchi os documentos para dar entrada no hospital e fomos conduzidos ao quarto 302/sul. Era um quarto de frente para Rua Princesa Isabel e com uma árvore bem à altura da janela. Trabalhei alucinadamente em meu laptop programando ações para minha ausência, respondendo e-mails e telefonemas. Ao longo do dia passaram nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, anestesista e cirurgião para prestar esclarecimentos sobre a cirurgia. Estava tranquilo e determinado. imaginando as dificuldades que me aguardavam nos próximos dias. Muitos exames ao longo da tarde. À noite, antes de dormir, passou uma enfermeira para raspar meus pêlos do corpo, dar as instruções para o banho e fazer a higiene pré-cirúrgica. Dormi tranquilo. Minha mãe ficou no hospital e às 6h30min fomos despertos por Adriane Mitidieri e Gua Vianna. Logo em seguida chegou a enfermeira e continuaram a chegar outros familiares. Eu havia sido taxativo com todos de que não queria cenas dramáticas. E que não queria visitas na UPO - Unidade Pós Operatória. E que gostaria de que quem viesse ao hospital estivesse praticamente em traje de festa! (Depois entendi que todas as restrições que fiz, referiam-se ao fato de que não querer que os outros sofressem por mim. muito provavelmente eles sabiam que eu iria passar, mas esse seria um momento meu).
Adriane me acompanhou junto à maca até as portas da sala de cirurgia. Suas palavras, como sempre, foram confortantes. Ao entrar no bloco cirúrgico a anestesista se apresentou, segurou meu braço, e me encaminhou para um local onde acho que foi a cirurgia. Disse: "Lauer, eu vou pegar uma artéria no seu pulso. Isso dói, mas passa logo". Senti a agulha e ela disse para sua assistente: "Essas artérias que dançam, são impossíveis. Vou ter que pegá-la por cima". Apaguei.
domingo, 19 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Mishima - O Pavilhão Dourado
"... pois a simples obstinação pela beleza leva as pessoas ao encontro da mais sombria das ideologias deste mundo, sem que elas se deem conta disso. Quem sabe o homem não tenha sido feito para ser assim?"
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